Relatos de viagem: Torres del Paine – Circuito Q – Dia 7

7º DIA – ACAMP. LOS PERROS X REFÚGIO GREY

Acampamento los perros - Acamp. Paso

Ainda era noite quando terminamos de ajeitar as coisas nas mochilas para partir rumo ao desafio do dia. A temperatura girava em torno de 0º C e as primeiras passadas na trilha foram cruéis até que o corpo se ajustasse ao ritmo da caminhada.

O silêncio da madrugada aos poucos era quebrado pela cadência dos nossos passos (e por alguns “risinhos provocantes” vindos das barracas vizinhas que iam ficando para trás).

Como não sabíamos se iríamos ficar no Acampamento Paso ou no Refúgio Grey resolvemos que tomaríamos café na estrada mesmo, sem pausas longas até que a decisão fosse tomada.

O ápice do dia seria o, ora amado – ora odiado (e vamos explicar o porquê), Paso John Gardner. Do acampamento até esse que é o ponto mais alto de todo o Parque seriam apenas 4,5 km… Parece pouco né?! Aí é que se engana… Apesar da distancia curta, o trekker sai de 600 para 1200 m acima do nível do mar. São 600m de subida num trecho de 4,5 km!!!

PAUSA!

Antes de continuar o relato, considerando que esse é um trecho bem técnico, vamos elencar alguns fatores para vocês se nortearem e avaliarem a melhor decisão: Ficar no Acamp. Paso ou prosseguir até o Refúgio Grey. (nós optamos em seguir, mas isso não é uma regra ok?!)

  • Trecho: Acampamento Los Perros – Acamp. Paso
  • Subida: 4,5 Km
  • Elevação: 600m (de 600m p. 1200m em relação ao nível do mar)
  • Tempo de subida: 3-4 horas
  • Descida: 4 Km
  • Elevação: 800m (de 1200m p. 400m em relação ao nível do mar)
  • Tempo de descida: 3 horas
  • Trecho: Acamp. Paso – Refúgio Grey
  • Distância: 15,5 Km
  • Elevação: 350m (de 400m p. 50m em relação ao nível do mar)
  • Tempo: 5 horas

EM RESUMO: Até o Acampamento Paso são quase 9 km de muuuuita subida e descida que se faz em quase 7 horas. Para o refugio Grey você terá pela frente mais 7 km e 5 horas. Seja prudente e avalie. Durante o relato elencaremos os prós e contras da decisão, porém uma coisa é certa, se optar em seguir até o Grey tenha em mente que terá um caminho pesado pela frente e terá que sair de madrugada se não quiser chegar de noite no acampamento.

Continuemos o relato…

Camping Los Perros

Na medida em que os primeiros raios de sol iam surgindo no horizonte íamos tendo uma noção do que nos aguardava para aquele dia.

O primeiro desafio foi atravessar uma espécie de pântano de lama preta e pegajosa, sob um bosque de árvores baixas e retorcidas.

Paso John Gardner

Trecho vencido, iniciamos uma longa subida por um terreno cada vez mais descampado e pedregoso onde o ziguezague do caminho parecia não ter fim.

Paso John Gardner

Esta parte do percurso foi bem lento, haja visto que a subida era longa e íngreme. Confesso que tivemos de parar de vez em quando para recuperar o fôlego.

Por estarmos percorrendo um trecho longo e em ziguezague, de tempos em tempos chegávamos a um platô que nos dava a falsa sensação de já estarmos chegando no cume. Triste ilusão… Depois de um pseudo cume de montanha vinha outro, e outro, e outro… e nada do Paso John Gardner. Nesse momento havíamos entendido o lado “odiado” do Paso.

No entanto, o ódio não dura muito tempo… Ao fim de toda a subida, chegamos ao Paso John Gardner, 1200 metros de altitude, o ponto mais alto de toda a caminhada.

Inexplicável… Inimaginável…

Paso John Gardner

Apesar do tempo estar contra nós, decidimos encarar o forte e frio vento que soprava para contemplar por uns instantes a visão que o Arquiteto do Universo nos permitiu presenciar.

Afinal, gastar algum tempo para admirar a natureza é descobrir um mundo de tesouros. Confesso que ainda não encontrei momento mais agradável do que aqueles que tive apreciando a natureza e ouvindo os sons do vento. São lapsos de tempo como esse que nos lembram o quão bela a vida pode ser, pois ter um momento para descobrir a natureza é descobrir a si mesmo.

Sim, concluímos que os seres humanos nunca estarão mais próximos de si do que quando estão perto da natureza… Alguns de nós gostamos de fantasiar um mundo mítico de criaturas sobrenaturais e planetas e, sinceramente, depois de ver o que vimos no Paso John Gardner, não acho essas fantasias necessárias quando vivemos em um planeta tão incrível como o nosso.

20160324_123129

O Paso John Gardner é um daqueles lugares que fazem o coração bater mais forte, que causa um nó na garganta e traz a sensação de que todo, absolutamente todo esforço valeu a pena. Uma pena as fotos não conseguirem capturar a essência surpreendente deste lugar…

Infelizmente não podíamos ficar por lá muito tempo então, com a alma refrigerada, iniciamos a descida.

Descida do Paso John Gardner Paso John Gardner

E que descida! Sim, era tudo aquilo que haviam nos alertado! Além de escorregadio, o trecho era muito sinuoso e inclinado. E parecia não ter fim. Horas a fio. Mesmo com cuidado, nossos joelhos e pernas sofreram a cada passo.

Quando chegamos ao Acampamento Paso, o que era eu dúvida virou certeza. Iríamos seguir adiante até o Refúgio Grey. O camping era numa área bem pequena, pouca gente acampa por ali. Além dum terreno muito irregular, as fortes rajadas de vento nos levaram a crer que o acampamento era, basicamente, para emergências. Paramos apenas para lanchar e recompor um pouco das forças.

Caso a necessidade te leve a acampar por ali, aqui vai algumas dicas:

  • Apesar de estar localizado na floresta, nas proximidades há uma bela vista do Glaciar Grey.
  • É gratuito.
  • Não possui chuveiros e os banheiros são bem precários (uma casinha sem janelas com um buraco cimentado no chão e uma cordinha para segurar enquanto se está agachado).
  • Água só do rio, que não pode ser contaminada com nenhum tipo de componente químico (nem sabonete ok?!).
  • Existe uma pequena área coberta com um telhado e uma grande mesa para cozinhar e comer.
  • Possui um Guardaparque que monitora o local.
  • Não há latas de lixo, você deve levar o lixo que produzir.

A partir dali, as descidas continuavam e, mesmo que ainda dominantes, perdiam a intensidade com o passar das horas. Já podíamos novamente relaxar um pouco.

Chegamos no Refúgio Grey no final da tarde e, de fato, valeu a pena caminhar um pouco mais. A infraestrutura do lugar é digna do preço que se paga por ela. 6000 mil pesos chilenos por pessoa.

Banheiros limpos, duchas quentes das 19h às 21h, restaurante, albergue, camping, cozinha coletiva abrigada do vento com mesas e pia além de um armazém considerável com várias guloseimas à venda resumem os mimos deste Refúgio particular (vale dizer que o Grey constitui uma das pernas do circuito W, e, por ter um volume de visitantes maior, a estrutura se tornou proporcional ao lucro dado pelos tantos turistas que fazem o percurso mais famoso do Parque).

Refugio Grey

Ah, antes de concluirmos, uma curiosidade desse Refúgio… Assim como foi para nós, o Refúgio Grey é, para muitos, o local onde se passa a última noite em Torres del Paine (levando-se em consideração as pessoas que fazem o circuito Q ou o O no sentido anti horário). Assim, sabendo que não é permitido levar as mini botijas de gás nos aviões, uma enorme quantidade de trekkers deixa os seus pequenos botijões, por vezes ainda cheios de gás, no Refúgio. Como descobrimos isso? Nesse dia o nosso gás acabou e o que nos salvou foi uma dessas muitas botijas deixadas gentilmente para trás por outros viajantes.

RESUMO DO DIA:
  • 7º dia: Acamp. Los Perros – Refúgio Grey
  • Distância: 24 km
  • Total: 134,5 km
  • Tempo: 12 h
  • Vídeo-relato do dia:

8 comentários sobre “Relatos de viagem: Torres del Paine – Circuito Q – Dia 7

    1. @mochilandonaweb Autor da Postagem

      Ei Luciene! Obrigado pelo apoio e incentivo! Como sempre deixamos claro aqui, somos pessoas comuns que só querem compartilhar experiencias e estimular outras pessoas a buscar seus sonhos de viagem!

      Fico feliz que tenha gostado! Forte abraço!

    1. @mochilandonaweb Autor da Postagem

      Olá João!

      Que bom que esteja gostando meu amigo! Os relatos tem como único objetivo ajudar as pessoas mesmo!
      Obrigado pelo elogio! O 8º dia já está “saindo do forno”!

      Abração

  1. Rafael Anic

    Olá amigos, muito legal o relato de vocês (e um parabéns em especial pra organização dos videos, ps, imagens e dicas) muito completo e organizado, de verdade.

    Vai ser minha 3º vez na Patagônia em Janeiro agora (dá pra ir só 1 vez? hahaha não consigo)

    em 2011 fui apenas na parte Argentina (El Calafate e El Chalten)

    2013/2014 fui nas duas parte Argentina e Chile (El calafate, El chalten, P_uerto Natales e Torres del Paine), porém fiz o percurso W.

    Agora em 2016/2017 faço novamente as duas partes, porém, em Torres del Paine farei o circuito completo ;), e dessa vez optei por ir sozinho, alias, eu e aquela natureza absurda!

    Bem obrigado pelo relato, apesar de já ter ido e feito o W, as informações se perdem com o tempo e sempre é bom reconfirmar tudo, afinal muito não lembrava, e a parte de trás não sabia bem. Obrigado e um abraço pra vocês

    1. @mochilandonaweb Autor da Postagem

      Olá Rafael!! Muuuito obrigado pelos elogios irmão! Ficamos super felizes em saber que os nossos relatos de alguma forma te ajudou! Como dissemos em alguns posts, o único objetivo do blog é inspirar as pessoas a realizarem os seus sonhos de conhecer maravilhas da natureza como Torres del Paine!

      Aliás, como vc mesmo disse, impossível não retornar naquele paraíso muitas vezes não é mesmo?! Mas me diz uma coisa, em todas as vezes você foi num único sentido (horário, por exemplo) ou fez de formas diferentes p. observar a natureza sob outra ótica?! Digo isso porque, assim como você, estamos pensando em voltar na Patagônia para conhecer o lado argentino e, aproveitando a ocasião, fazer novamente Torres Del Paine (porém no sentido anti-horário).

      Abração e boa viagem! Curta cada segundo daquele paraíso por nós ok?! Ah, e precisando de alguma ajuda ou informação é só dar um toque por aqui tá bom?! Será um prazer poder contribuir!

  2. Regis

    Boa noite. Muito legal o relato de vocês. Estou me preparando para ir agora no final do ano. Uma curiosidade: aquelas pontes de madeira substituiram as escadas de metal?
    Obrigado!

    1. @mochilandonaweb Autor da Postagem

      Olá Regis! Nós que agradecemos pelo elogio! Ir no final do ano deve ser uma experiência incrível! Aproveite cada segundo por lá!
      Quanto as pontes, se estivermos falando do mesmo local nós não vimos nenhum resquício de escada de metal não, acredito que tenham sido substituídas sim. Forte abraço meu amigo!

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